Aqui (ou Memórias Do Cárcere)

Vou
Vou pregar na parede
Um pedaço de céu
Que você me mandou

Vou buscar outra constelação
Entre a noite que vai
E o dia que vem

Eu canto aqui
Eu olho daqui
Eu ando aqui
Eu vivo

Canto aqui
Eu grito aqui
Eu sonho aqui
Eu morro…
(morro)

Vou
Vou riscar no meu braço
Um pedaço de mar
Que você me deixou

E criar outra recordação
Do primeiro lugar
Que acordei pra te ver

Eu canto aqui
Eu olho daqui
Eu ando aqui
Eu vivo

Canto aqui
Eu grito aqui
Eu sonho aqui
Eu morro…
(morro)

(Cordel do Fogo Encantado – ouça e veja aqui)


sem correria

não corro pra fazer poesia
não escolho palavras à revelia
se escrevo rapidamente
o texto parece incongruente
dá impressão que foi feito
nas coxas, de qualquer jeito

gosto de escrever com calma
colocar palavras em harmonia
dizer o que quer a alma
seja verdade ou fantasia

nos meus versos alegria
idéias, sensações, sentimentos
às vezes triteza, sem demagogia
materialização de pensamentos

e desse jeito
crio minha poesia
a calma um preceito
como quem assobia


utopia

existir imperfeitamente
é o que acontece
tenha isso em mente
é o que a vida oferece

exista para acertar
essa é a razão
tenda a não errar
controle sua direção

se perfeito fosse
existir de que valeria?
o aprender não seria doce
viver seria utopia


Se não houve

Se não houve amor, valeu pelo gostar
Se não houve gostar, valeu pelo querer
Se não houve querer, valeu pela alegria de estar com você
Se não houve alegria, valeu pela amizade
Se não houve amizade, valeu pela intenção
Se não houve intenção, foda-se, vai ser exigente assim na puta que pariu!

(Publicado originalmente no Manual do Canalha Padrão, veja aqui)


nuvem

às vezes pareço uma nuvem
leve e pelo vento levado
pesado e por dentro carregado

em dia ensolarado
no meu rosto, formas de riso
em dia nublado
alguns trovões e eu suavizo

se muito carregado, eu chovo
devolvo o sorriso ao rosto
clareio e fico disposto
a brincar de esconder o sol de novo


ciclo

o amor enche o mar
aos poucos evapora
sobe pelo ar
uma nuvem carregada
ao encontrar outra perdida
explode em raio e  trovoada
com o tempo precipita
pra alegria da semente aflita
a terra sem amor grita


amor d´agua

de fonte ou nascente
surge o amor
da solidão um alento
para a vida cor

percorre sua senda
no coração o seu leito
até que ao mar ascenda
enquanto enche o peito

no oceano de sensações
entre marés tranquilas e revoltas
navegam corações

onda violenta o velejo estraga
se a tripulação se perde
a embarcação naufraga


A uma passante

A rua em derredor era um ruído incomum,
Longa, magra, de luto e na dor majestosa,
Uma mulher passou e com a mão faustosa
Erguendo, balançando o festão e o debrum;

Nobre e ágil, tendo a perna assim de estátua exata.
Eu bebia perdido em minha crispação
No seu olhar, céu que germina o furacão,
A doçura que embala e o frenesi que mata.

Um relâmpago e após a noite! – Aérea beldade,
E cujo olhar me fez renascer de repente,
Só te verei, um dia e já na eternidade?

Bem longe, tarde, além, jamais provavelmente!
Não sabes aonde vou, eu não sei aonde vais,
Tu que eu teria amado – e o sabias demais!

(de Charles Baudelaire – retirado daqui - Fonte: Baudelaire, C. 2006. As flores do mal. SP, Martin Claret. Poema originalmente publicado em 1861.)


Espelho não me Prova que Envelheço

O espelho não me prova que envelheço
Enquanto andares par com a mocidade;
Mas se de rugas vir teu rosto impresso,
Já sei que a Morte a minha vida invade.

Pois toda essa beleza que te veste
Vem de meu coração, que é teu espelho;
O meu vive em teu peito, e o teu me deste:
Por isso como posso ser mais velho?

Portanto, amor, tenhas de ti cuidado
Que eu, não por mim, antes por ti, terei;
Levar teu coração, tão desvelado
Qual ama guarda o doce infante, eu hei.

E nem penses em volta, morto o meu,
Pois para sempre é que me deste o teu.

(De Willian Shakespeare – Tradução Ivo  – Retidado daqui)


boa idéia

não é uma boa idéia
se apaixonar por algumas idéias
apaixona-se ao fazer idéia
do que você não tem idéia do está pra se fazer
e que se dane a métrica e a rima
que as palavras caminhem em pares
ou quintetos, trios ou quartetos
mas que sigam caminhando
dos olhos pra dentro


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